clube do livro

A cada mês o resumo e crítica de um livro novo para a sua biblioteca

"Do Carvão ao Leite"

(Eugene Robinson)

Nesse livro de precisão impecável, o jornalista afro-americano, Eugene Robinson faz uma análise comparativa muito realista sobre a questão racial no Brasil e nos Estados Unidos. Ele relata com simplicidade e exatidão sua experiência como editor chefe da América Latina para o muito conceituado jornal americano "The Washington Post", quando ele fez inúmeras viagens ao Brasil, país que o encantou, intrigou e decepcionou no que diz respeito à percepção de raça que o povo brasileiro tem sobre sí mesmo, em especial os negros. Robinson conta de seu encanto inicial com o fato de o brasileiro negro nunca levar sua raça em conta e viver "em paz com o que ele é". O autor, que cresceu no segregado sul dos Estados Unidos, achou esse àspecto da vida muito relaxante e apaziguador. Mas ao começar a conhecer melhor o povo, ao entender melhor a língua e cultura do país, ele se

dá conta de que tudo não passa de uma cegueira crônica e um insuperável complexo de cor sofrido pelo brasileiro negro que o mantem desunido e incapaz de lutar juntos por seus direitos e contra o racismo no país. Segundo Robinson o negro só alcançará um lugar na sociedade brasileira quando deixar de se categorizar e separar por tonalidade da pele. Do ponto de vista americano, o fato de o negro brasileiro se definir pela cor (moreno, sarará, moreno claro ou escuro, cor de jâmbo, etc...) e não pela raça, o que resultaria em muito mais que a metade da população brasileira ser constituída de negros, os torna alheios aos problemas da comunidade negra em geral e o mantem excluído de instituicões educacionais e postos mais altos no mercado de trabalho porque geralmente o negro brasileiro não se acha negro (estando assim ausente muitas pesquisas de estatísticas); abdicando assim de sua responsabilidade com o grupo em geral. Robinson descreve uma passagem onde ele se confronta com a realidade do complexo de cor brasileiro:

"Eu me virei para a namorada brasileira do meu colega americano, cujo nome eu lembro ser Vilma, e perguntei como é mesmo ser negro no Brasil.

Ela respondeu com um olhar de genuína surpresa:

"Mas eu não sou negra", ela disse...

..."Mas você é, Vilma", eu me choquei, "eu sou negro, e você é tão escura quanto eu".

Ela colocou o braço perto do meu para comparar, ela era ainda mais escura do que eu.

"Mas essa cor não é negra", ela disse...

Depois que ela se foi alguém (um brasileiro) notificou que o cabelo dela era liso, e que ela gozava de um status e renda consideráveis na sociedade com seu emprego como advogada"...

No final de sua experiência, Robinson chega a conclusão de que ele realmente prefere o jeito americano de lidar com a questão racial, onde, apesar de todos os conflitos existentes e tão mal explorados pela mídia, se vê muito mais negros ocupando lugares no topo da sociedade efazendo parte da inteligência do país:

..."Eu pensei em raça e cor naquele dia de outubro em Washington. Eu olhei para os meus irmãos negros de pele clara, de pele média e de pele escura e lembrei de como tão fervorosamente muita gente nos Estados Unidos deseja que a identificação pela raça simplesmente acabasse. E eu tive esperança com toda as minhas forças que não - pelo menos ainda não."

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