Divã
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Não Quero mais Ser Negra

Minha pele escura e cabelos crespos não são atributos favorecidos na comunidade negra. "Sua pele é muito preta," "Seu nariz é muito largo," esses eram meus rótulos de desonra.

Como resultado eu sou um dos muitos negros que acham mais fácil viver e trabalhar fora de minha comunidade. Sem arrependimento eu me sinto mais comfortável socializando com brancos do que com negros. Sem contar que isso é sinônimo de "traição". Lideres negros me consideram -e a outros como eu- uma ameaça à consciência negra. Eles dizemque nós viramos as costas à comunidade negra e ignoramos os sacrifícios feitos para o nosso próprio avanço; nós somos injustamente taxados de "vendidos" por expressar essa preferência.

Eu cresci numa comunidade negra e sentia um certo grau de comforto sendo negra. Ingênua na época, muito menos agora, eu aprendi que cor não me oferece nenhum comforto. Ao contrário, ela serve para me estereotipar ou me definir injustamente.

Como uma comunidade, nossa negritude, ou falta dela, é geralmente notada em descrições que nós cunhamos para especificar a nossa côr. Alguém é sempre muito preto, muito claro, côr-de-burro-quando-foge, sarará, preto-chega-a-ser-azul, quase-branco, e assim por diante.

Eu me pergunto se os brancos categorizam as diferentes tonalidades de "bancura" com a mesma dedicação de mal gosto... Eu acho que não!

essa fascinação com côr é esquisita, considerando que todos esses rótulos podem ser tanto um insulto quanto um elogio. Embora a côr da minha pele enverga para o lado mais escuro do espectrum, eu nunca fui suficientemente negra para satisfazer a alguns. Meu maneirismo tem sido o meu calcanhar de Aquiles desde a infância. Eu sempre fui ridicularizada por causa do meu jeito de vestir e falar. Minha mãe pode ser culpada, ou aplaudida, por eu ser a "anomalia" que eu sou. Ela não admitia gíria ou plural mal formado. Ela também me proibia de pensar pouco de mim mesma por causa de classe (nós morávamos num bairro muito pobre) ou côr, onde nós vivíamos côr afetava classe. De fato ela me encorajava a fazer o oposto.

Quando eu me mudei para Dallas, Texas, para dirigir um jornal para negros, um dos lideres da comunidade negra queria saber onde eu morava. Quando eu lhe disse, ela me perguntou: "Como você pode representar e escrever sobre a comunidade negra se você nem vive numa?" Na época eu não tive uma resposta, mas agora eu tenho.

Nossas comunidades se tornaram um paraíso para o uso de drogas e crimes. Elas são lixões econômicos. Eu lembro dos etíopes que morreram no meio do deserto e me pergunto por que eles não se mudaram para perto da água... É assim qu'eu vejo a nossa comunidade. Então eu me mudei para um lugar onde eu possa crescer, onde eu possa dar um passeio sem medo de ser perfurada por uma bala perdida, onde eu me sinto comfortável indo dormir à noite.Viver não é ser negro, e ser negro não é tudo que se tem para viver. Eu nunca fiz um juramento de aliança com a comunidade negra. E nunca farei.

Eu não estou negando ser uma mulher negra que odeia e sofre com o racismo. Eu não estou dizendo que quero ser branca. Eu simplesmente não quero ser nenhum dos dois.

quando as pessoas me vêm elas invariavelmente olham através da pessoa e vêm a côr; tanto brancos quanto negros. Em Atlanta, aos 21 anos, como a única editora negra de um jornal, eu era vista como "metida a boa" pelos dois lados porque eu era jovem e negra. Ninguem reconhecia todo o trabalho e abilidade que me colocaram naquela posição.

Eu não posso negar que tenho pele escura, mas eu me recuso a carregar toda a bagagem que vem com a minha côr. Para a melhor ou pior, eu decidi que não quero mais ser negra.

Texto adaptado de um artigo para a revista afro-americana Essence

Yolanda Y. Adams

Americana. Vive em Dallas e trabalha com vendas